OS GIME (Grupos de Interesse de Manutenção Estradas)

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Os GIME

Hoje é possível circular em várias estradas nacionais e rurais com maior visibilidade e alguma segurança. 

Antes da intervenção da sociedade civil organizada em Grupos de Interesse para a Manutenção de Estradas (GIME), o sector rodoviário enfrentava diversos problemas, nomeadamente com a manutenção corrente e periódica por falta de financiamento. O capim chegava a tomar conta da via.

No sector rodoviário, o Governo decidiu em 2005 adoptar uma nova filosofia de intervenção, priorizando a manutenção e a implicação da sociedade civil como um factor fundamental e decisivo. Depois de uma experiência piloto, a ideia se estendeu por todo o país. 

Os GIME surgiram de associações que integram residentes das zonas onde actuam. Cada um, tem uma área de cobertura (território e estradas de competência) e funcionam na base de um regulamento interno.

Cada GIME tem um presidente ou gestor, um secretário, um tesoureiro, um presidente fiscal, um vogal e brigadas; cada uma com um chefe e vários cantoneiros. Em função das intervenções podem ser agregados operadores de máquina, trabalhadores especializados em asfalto, macadame e calçada, bem como carpinteiros e pedreiros. 

O seu trabalho incide essencialmente nas margens das estradas e faixas de rodagem: limpeza do capim, construção e reparação dos sistemas de drenagem. Têm feito intervenções em pequenas pontes e aplicado técnicas para a contenção da erosão.

A acção dos GIME permitiu igualmente a reabertura de estradas rurais que estiveram abandonadas durante vários anos. 

São trinta e dois em todo o território nacional (vinte e oito em São Tomé e quatro no Príncipe) que prestam serviço. São cerca de 1700 pessoas envolvidas, representando 239 localidades que recebem um complemento para o seu rendimento. Numa boa parte dos casos, é a primeira fonte de recursos. O programa tem contribuído para reduzir a pobreza.

Após dois anos de actividade já é visível que a circulação em todo o território nacional tornou-se mais fácil.  

Os resultados indirectos são também positivos, porque ajudou a romper o isolamento das comunidades rurais, permitindo o acesso de produtos agrícolas adicionais aos mercados urbanos, o surgimento de novos lotes de produção, o acesso aos serviços sociais básicos como escolas e centros de saúde, de transportes ligeiros, assim como a multiplicação do pequeno comércio rural.

Todos os utilizadores a rede rodoviária conhecem e apreciam a acção dos GIME. A visibilidade do programa é a todo o título excepcional. Porém, isto não tem evitado alguns conflitos entre os GIME e a população não participante directamente no processo, sobretudo, no que diz respeito à contribuição na manutenção da limpeza de bermas e valas.  

De notar que o objectivo inicial da manutenção, segundo a convenção de financiamento assinado com a Fundo Europeu de Desenvolvimento (FED) referia-se aos troços reabilitados. Porém, os GIME fizeram muito mais.

 

Perspectivas

 

A tendência é que estas associações possam vir a evoluir como fazendo parte do sector privado da sociedade civil, na manutenção de estradas, pela formação gradual de empresas, tornando pólos geradores de emprego e de riqueza de forma independente do estado para as populações beneficiárias especialmente nas áreas rurais.

 

Alguns gestores já sugeriram que num futuro não longínquo gostariam de integrar as estruturas das câmaras distritais vocacionadas para manter as estradas em boas condições de circulação.

 

Enquanto isso, as associações “gimistas” estão a aprofundar a sua estrutura organizativa, sempre de acordo com os princípios democráticos. Foram constituídas três Federações em São Tomé correspondentes a regiões Norte, Centro e Sul, e uma no Príncipe.

 

O objectivo das Federações é desenvolver actividades de manutenção periódica e extraordinária, gerir os materiais e equipamentos colectivos, apoiar os membros no fornecimento regular de matérias e ferramentas de trabalho, servir de elo de ligação entre os membros, parceiros, instituições públicas e outras organizações, além de programar e desenvolver actividades que visam melhorar as condições sociais e económicas dos membros.

 

Para se chegar a esse estágio foi necessário todo um trabalho prévio de estruturação que passou por diversas etapas e contou com a participação das ONG Zatona - Alisei. 

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Formação

 

Entre as acções que tiveram de ser implementadas destaca-se o levantamento das organizações da sociedade civil, tais como associações de agricultores, de moradores, de jovens; pequenas e medias empresas privadas, ONG’s, tanto formais como informais.

 

Realizaram-se também vários encontros nas comunidades com o objectivo de conhecer o nível de operacionalidade e a disponibilidade de cada organização e transmitir as informações relativas ao projecto de forma a identificar as pessoas potencialmente interessadas a participar na formação para gestores dos GIME e na formação técnica sobre a manutenção e reabilitação de estradas.

 

Foram seleccionados candidatos em cada localidade, tomando em conta a igualdade e equidade do género para participar na formação e outros requisitos como o nível de formação (mínimo 6° classe); capacidade de liderança e reconhecimento a nível da comunidade; alguma experiência em gestão de associações e/ou de grupos de pessoas, assim como em participação em trabalhos de manutenção e/ou reparação de estradas e disponibilidade de tempo, para citar alguns critérios.

 

A formação tem sido feita em várias etapas com testes de avaliação. Ela é de carácter teórica e prática e as temáticas variam.

 

Para a constituição dos GIME, foram dadas noções sobre associativismo e empresas, significado e gestão de empresa; o que é o GIME, seus órgãos e seu funcionamento e organização do trabalho das brigadas (programação dos trabalhos).

 

Aos participantes foram igualmente transmitidos conhecimentos sobre gestão e solução dos conflitos e noções básicos de carácter jurídico relacionadas com a gestão de contratos de prestação de serviços.

 

Numa segunda fase, foi realizada uma formação para os membros do corpo directivo em que foram abordados temas relacionados com a gestão do GIME, nomeadamente participação em concursos para prestação de serviços; gestão do GIME: papel dos gestores, preparação e apresentação de orçamentos, preparação e apresentação de facturas, preparação e preenchimento de fichas de presencia, de pagamento individuais e outros documentos administrativos; aquisição e gestão do material e equipamentos; fiscalização e acompanhamento dos trabalhos das brigadas e relacionamento entre os gestores e as diferentes brigadas.

 

Por sua vez, aos representantes de brigadas foram ministrados conhecimentos básicos relativamente às estradas, aos principais cuidados a ter para a sua manutenção, à organização pratica dos trabalhos das brigadas.

 

Neste sentido, os formandos obtiveram informações sobre a estrutura de uma estrada e suas características geométricas; as características dos materiais utilizáveis para as estradas em terra, modalidades e técnicas de execução dos trabalhos de manutenção (apresentação de amostras de diversos materiais); o compactamento e o grau de humidade; os princípios básicos da drenagem e os principais problemas que podem apresentar uma estrada em terra e técnicas de resolução dos mesmos.

 

Mais recentemente foi dado mais um passo em frente, com a aprendizagem de técnicas de tapagem de buracos em asfalto.

 

Em todo este processo, cerca de 350 pessoas foram formadas.

  

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As Estradas em São Tomé e Príncipe

 

 

Os 1 100 km que representam hoje a totalidade da rede rodoviária identificada estão sujeitos à manutenção corrente pelos GIME: 859 km rurais, 233 km em asfalto. Eram aproximadamente 900 km, quando o programa foi elaborado: 250 km de estrada betuminosa e 720 km em terra batida.

 

Este quadro é indicador de que a rede rodoviária em São Tomé e Príncipe é relativamente pouco desenvolvida. E a sua funcionalidade ainda não é óptima, sobretudo para facilitar a vida das pessoas que vivem no mundo rural.

 

As intervenções que foram sendo feitas, tanto na perspectiva de reabilitação como de construção de novas vias, com o apoio de vários parceiros, têm durado pouco.

 

As causas foram identificadas. Um grupo delas relaciona-se com factores ligados à natureza: o clima equatorial com chuvas frequentes, morfologia acentuada, vegetação densa e as águas que correm de forma descontrolada. Outro, está vinculado à falta de manutenção corrente e periódica, também por ausência de meios financeiros para manter a totalidade da rede numa situação óptima e uma certa má gestão dos fundos do sector rodoviário.

 

A conjunção desses factores fizeram estragos importantes nos pavimentos e nas infra-estruturas, causaram estragos consideráveis na rede, prejudicando o desenvolvimento equilibrado da economia e a luta contra a pobreza a nível nacional.

 

Entretanto, pistas rurais foram construídas, outras estão a ser reabilitadas. Já se começa a vislumbrar melhorias na vida das populações rurais beneficiadas pelas intervenções, especialmente na ligação entre as comunidades, escoamento de produtos agrícolas para os centros urbanos e a ida de produtos alimentares para os meios rurais. Mas, em termos estatísticos, ainda não se conhece a dimensão real do impacto destas intervenções.

 

Em 2008, o Instituto Nacional de Estradas (INAE) propõe-se reabilitar mais 25% de estradas asfaltadas a nível nacional.

 

Entretanto, está em curso um extenso programa de actividades direccionadas para a reabilitação de estradas tanto em asfalto, em terra e em calçada. As intervenções aplicam-se também à recuperação de pontes e realização de estudos para protecção da orla costeira no país.

 

  

Os GIME e o INAE

 

Os Grupos de Interesse para Manutenção de Estradas têm um vínculo com o Instituto Nacional de Estradas, através de contratos para os trabalhos de manutenção.

 

O INAE criado ao abrigo do Decreto-lei nº 26/2005 tem como objectivos zelar pela manutenção permanente das condições de infra-estruturas e conservação e salvaguarda do estado da estrada que permita a livre e segura a circulação; velar pela política e estratégia de desenvolvimento da rede rodoviária; planear e programar as intervenções nas infra estruturas do património rodoviário e assegurar a gestão e desenvolvimento das actividades conferidas no sector rodoviário.

 

Entra também nas competências do Instituto, proceder a estudos sistemáticos da problemática da rede rodoviária nacional; assegurar um seguimento estatístico dos indicadores rodoviários, a alimentação de uma base de dados rodoviária e a colecta de informações sociais e ambientais nas suas interacções com a rede rodoviária; realizar ou proceder ao acompanhamento de estudos, anteprojectos, projectos e elaboração de cadernos de encargos; proceder ao lançamento de concursos públicos e participar na avaliação das propostas e adjudicação dos trabalhos; bem como assegurar o seguimento administrativo e técnico dos contratos com as empresas privadas nomeadamente, estudos, obras e fiscalização.

 

O INAE é um instituto público, dotado de personalidade jurídica, Estatutos próprios, autonomia administrativa e financeira e património próprio, sujeito à tutela do Ministro responsável pelo sector de Obras Públicas.

 

Surgiu após a extinção do Serviço Nacional de Estradas (SENAE), por não ter atingido os resultados que nortearam a sua criação.

 

O Instituto é constituído por uma Direcção executiva e por quatro unidades tratando-se de Planificação e Seguimento Estatístico, Concursos e Contratos, Estudos Obras e Fiscalização e uma de Administração.

 

A Direcção executiva é responsável pela definição e implementação das actividades para atingir os objectivos e resultados esperados e a coordenação dos recursos humanos e gestão corrente, dando conta da sua actividade quer à tutela quer à Comissão de gestão do FRN.

 

São da competência da Unidade de Planificação e Seguimento Estatístico, a planificação e programação das intervenções o seguimento e tratamento da informação com base nos indicadores e a alimentação da base de dados rodoviária (BDR) bem como a colecta de informações sociais e ambientais.

 

A Unidade de Concursos e Contratos tem a incumbência de organizar os processos de concurso, o seu lançamento, fazer a avaliação das propostas, nomeadamente de atribuição dos contratos, elaborá-los e fazer o seu seguimento administrativo e jurídico.

 

A Unidade de Estudos Obras e Fiscalização deve estar capacitada para a realização e o seguimento dos estudos; anteprojectos, projectos e elaboração de cadernos de encargos, a contribuição técnica aos processos de concurso e o seguimento técnico às prestações das empresas.

 

A Unidade de Administração concentra-se na gestão dos recursos humanos, a execução do orçamento, o processamento das remunerações e outros abonos, o aprovisionamento de bens e a aquisição de serviços e a gestão e manutenção do património do INAE.

 

Dentro da estrutura do INAE, encontra-se ainda a Célula de Gestão e Coordenação (CGC), coordenado por um assistente técnico e que é o órgão responsável pela gestão e coordenação de todas as actividades de apoio ao sector rodoviário.

 

O INAE é a única autoridade nacional de estradas em relação a infra-estruturas rodoviárias.

 

Em Junho de 2005 foi aprovada em Conselho de Ministros uma declaração estratégica para o sector dos transportes na sequência da aprovação da estratégia de redução da pobreza, tendo sido sublinhada a importância da melhoria do estado das estradas como factor determinante do desenvolvimento socio-económico.

 

O Governo manifestou interesse na “salvaguarda do património rodoviário”. Para atingir este objectivo, a prioridade está direccionada numa primeira fase para a manutenção integrada nos programas anuais de intervenções. A segunda etapa está virada na reabilitação da rede e uma terceira fase prevê o aumento da extensão da rede com a construção de novas estradas.

  

 

 

A problemática do financiamento

 

No último ano (Outubro de 2006 / Setembro de 2007), o programa de manutenção corrente com o envolvimento dos GIME custou cerca de um milhão e 500 mil euros.

 

Por enquanto, o esforço financeiro para se implementar a política rodoviária tem sido suportado em maior parte pela componente externa; apesar de existirem dotações orçamentais e ter sido criado, a par do INAE, o Fundo Rodoviário Nacional (FRN).

 

De acordo com o diploma nº 25/2005 de 15 de Novembro o FRN tem como objectivo “assegurar o financiamento de todas as actividades” relativas à totalidade da rede rodoviária nacional. Ou seja, estradas urbanas, nacionais, secundárias e rurais.

 

Em função da programação aprovada e da disponibilidade orçamental, o FRN financiará “prioritariamente as actividades de manutenção corrente, ordinária e extraordinária em todas as estradas a nível nacional, assim como as intervenções de reabilitação e de construção de novas estradas”.

 

Está previsto que as fontes do Fundo Rodoviário Nacional sejam diversas. Entre elas, a percentagem dos recebimentos cobrados com a venda de todos os combustíveis e lubrificantes, a totalidade das receitas provenientes dos impostos sobre veículos como os dísticos e a matrícula; os montantes das taxas cobradas em função do peso dos veículos, em conformidade com a legislação em vigor; as indemnizações recebidas por danos causados pelos utilizadores da rede nacional de estradas; os fundos postos a disposição pelo Orçamento Geral do Estado e as contribuições excepcionais resultantes da cooperação bilateral e multilateral.

 

Em resumo, o financiamento do FRN apoia-se, sobretudo, na ideia de fazer o utilizador pagar pela conservação e melhoria da rede rodoviária.

 

Porém, o FRN não tem conseguido os fundos necessários para desempenhar o papel que lhe foi atribuído. Por outro lado, debate-se sobre a necessidade de rever a estrutura do Fundo Rodoviário Nacional e dos seus métodos de gestão para melhorar a sua intervenção.

 

A União Europeia é o principal parceiro do país nesse domínio, não apenas na atribuição de recursos, mas também no acompanhamento da gestão de todas as actividades concernentes ao bom desempenho das novas estruturas criadas ao nível institucional.

 

Para apoiar São Tomé e Príncipe na redução da pobreza e respeitando o Acordo de Cotonou de 2000, a estratégia de cooperação acordada com a UE  priorizou o sector rodoviário  como o único em que seria concentrada a ajuda financeira.

 

No quadro do 9º FED, Fundo Europeu para o Desenvolvimento, foram disponibilizados 9,4 milhões de euros para apoiar intervenções no sector rodoviário.

 

Os GIME, Grupos de Interesse de Manutenção de Estradas foram criados no âmbito do 8º FED. E em parceria com a Agência Francesa de Desenvolvimento foram reabilitados cerca de 80 quilómetros de pistas rurais, retirando 25 comunidades do isolamento.

 

O surgimento dos GIME teve como reflexo um importante desenvolvimento de actividade no terreno e incremento no rendimento das famílias residentes, gerando emprego e acesso aos serviços de apoio social e de base.

 

Entretanto, os diversos GIME, apesar de reconhecerem que a iniciativa tem contribuído para melhorar os seus rendimentos, consideram que os montantes atribuídos para a manutenção por Km de estrada, 600 mil dobras, devem ser revistos em alta.

 

Em declarações ao programa radiofónico “As Nossas Estradas”, os GIME já fizeram repetidos apelos ao Governo, no sentido de garantir fundos para a continuidade das actividades de manutenção.

 

Na realidade, a viabilidade financeira é uma questão fundamental. A contribuição do FED irá ser progressivamente substituída pelo financiamento do Estado.

  

 

 

A questão do género nos GIME

 

De 1700 pessoas engajadas nas actividades dos GIME cerca de 40% são mulheres, correspondendo aproximadamente a 700, nos dias de hoje.

 

O envolvimento das mulheres é uma das prioridades do projecto. É o segmento populacional mais vulnerável em São Tomé e Príncipe. A taxa de desemprego entre as mulheres é duas vezes superior em comparação com os homens, 21,1% e 9,5%, respectivamente.

 

Uma grande parte delas é chefe de família. Toda a responsabilidade com a sobrevivência e a educação dos filhos recai sobre os seus ombros, porque regra geral o progenitor está ausente.

 

Em todo este contexto, a pobreza em São Tomé e Príncipe tem igualmente rosto feminino.

 

O rendimento face às responsabilidades com a família tem sido um dos critérios para o recrutamento dos “gimistas”.

 

Desde o surgimento dos GIME, o número de mulheres tem vindo a aumentar. Em contrapartida, não são muitas que ocupam cargos de responsabilidade nas estruturas dos Grupos de Interesse para a Manutenção das Estradas. De acordo com os dados estatísticos, 29,4% são chefes de brigada, 70 de 238 e antes da última remodelação dos GIME apenas duas ocupavam a função de gestoras.

 

Uma delas é Cosma Afonso, GIME 32, Associação Januário Graça, no Príncipe. Em declarações ao programa “As Nossas Estradas”, Cosma Afonso disse sentir –se “muito satisfeita” por ser uma das poucas gestoras.

 

Acrescentou que a aprendizagem foi “muito útil”, desde os aspectos relacionados com a reabilitação da estrada até a elaboração de projectos “ que não sejam de grande envergadura”.

 

Cosma Afonso garante que não tem tido conflitos com os colegas, porque é uma igual entre eles.

 

Irene, chefe de brigada do GIME 30, Associação Seguro Rodoviário com sede na empresa agrícola Porto Real, Príncipe; também considera que a actividade do GIME é importante. Mas para ela, nem sempre a tarefa é facilitada, por ser “jovem e mulher”. Às vezes surgem algumas situações conflituosas com cantoneiros, mas com a ajuda do gestor tem conseguido ultrapassá-las.

 

Na ronda por vários GIME feita pela reportagem do programa “As Nossas Estradas”, regra geral os diversos gestores manifestaram a sua satisfação com a actividade desempenhada pelas mulheres. Alguns consideram-nas mesmo mais “eficientes e cuidadosas” na realização das tarefas que lhes são distribuídas.

 

 

O Melhor GIME

 

Dos 32 Gimes existentes no país, o 21, Associação Mirador, com sede em Castelo é o melhor. Acumulou mais de 653 pontos. Cobre pouco mais de 35 km e abarca as comunidades Mendes da Silva, Monte Belo, Alto Douro, Alto Vouga e Castelo.

 

Clementino Marques, gestor do exemplar Gime explicou que a chave do sucesso esteve num número reduzido de penalizações.

 

“Iniciamos o programa há dois anos. Comecei primeiramente com a sensibilização entre os chefes de brigada para manter a estrada sempre limpa. Durante dois anos nós não sofremos muita penalidade. Nunca foi superior a 500 m. Foi na brigada de Alto Douro, isto porque faltava encorajamento e sensibilização da parte dos cantoneiros. Mas felizmente saímos disso.”

 

António Monteiro, chefe de brigada de Mendes Silva, confirma que a preocupação em não sofrer penalizações une o grupo. “Eu sempre sintonizo com os cantoneiros para que a minha brigada, nem o meu Gime sofram penalidades, porque se a brigada apanha, o Gime baixa de nível. Eu tenho ajudado o gestor para não tomarmos castigo”.

 

Carlos Vera Cruz, chefe da brigada de Monte Belo, acrescenta: “Primeiro, os cantoneiros têm que ter vontade de trabalhar e, por outro lado, a gente tem que ser exigente para cumprir tudo que está estabelecido no contrato. Por isso todos têm dado o seu contributo.”

 

São 40 cantoneiros, dos quais 14 mulheres. Neusa Andrade é uma delas. Tem 22 anos e tem 5ª classe de escolaridade. Ela considera o seu trabalho de “interessante” e “fixe”. É a sua principal ocupação, porque não conseguiu outro emprego.

 

Há cerca de 4 anos, o acesso, sobretudo para Mendes da Silva e Monte Belo era muito difícil. O governo de então construiu a estrada em terra batida que o Gime 21 tem contribuído para manter em bom estado há 2 anos.

 

Audília é pequena agricultora. Vive na comunidade Mendes da Silva. No seu lote cultiva cacaueiro, bananeira, mandioqueira, entre outros produtos. “Dantes carregávamos a carga na cabeça até a estrada principal, mas hoje já se vê muitos transportes aqui na comunidade”. O rendimento que obtém não é muito, mas “dá jeito”. Audília não trabalha no Gime, mas tem “gostado muito do trabalho que eles têm feito”.

 

Pedro Tavares, presidente da Associação Mendes da Silva, acrescenta que pelo menos duas vezes por semana vão “Yaces”, os pequenos autocarros, à comunidade carregar produtos que são vendidos na cidade capital.

 

“Portanto na reabilitação de estrada é de louvar e agora aparece o Gime que tem dado o seu esforço máximo. Estamos melhor em relação aos outros anos”.

 

Tavares acredita que a situação pode melhorar ainda mais se os pequenos agricultores tiverem apoio e acompanhamento técnico. A produção tem sido muito baixa. “O apoio está nas mãos do Governo”, afirma depois de relatar as diligências feitas pela Associação para combater as pragas que afectam os cacaueiros e bananeiras.

 

Teodoro Semedo, mais conhecido por “Budo” (Pedra) recordou que anteriormente em Monte Belo os produtos apodreciam, “mas hoje graças a Deus as coisas estão mudadas. Há transporte constante que traz as palaiês para comprar os nossos produtos aqui no terreno”.

 

Semedo que também possui um lote não trabalha no Gime. Porém, garante que tem dado a sua colaboração. “Às vezes quando vejo algumas pessoas a descascarem côco na estrada e deixarem as cascas no caminho, eu chamo-lhes atenção em bons modos para retirarem o lixo”.

 

Além da manutenção corrente, o GIME 21 tem feito trabalhos extraordinários, como revestimento em calçada, valas longitudinais, entre outros. Mendes da Silva, Monte Belo e Alto Douro são localidades beneficiadas com essas intervenções.

 

Actualmente, o colectivo está concentrado no combate à erosão, construindo paredes de contenção.

 

Contudo, não tem sido fácil. O transporte e os equipamentos são insuficientes. O Gime confronta-se várias vezes com a falta de material no mercado como o cimento. É preciso uma gestão rigorosa, porque nem sempre o orçamento é suficiente.

 

O Gime 21 pretende abrir uma nova estrada. São cerca de 8 km, que vai ligar Monte Belo a Água Izé.

 

O colectivo espera atingir o seu objectivo, porque o ambiente entre os membros é positivo. Está a ser forjada uma outra mentalidade, no sentido de ver e cuidar as Associações como “propriedade própria” e utilizá-la para o bem da comunidade. “Temos que ter o espírito de ver a Associação crescer. Por isso temos que esforçar e respeitar para chegarmos ao patamar que nós prometemos no nosso estatuto”, sublinhou o chefe de brigada, Carlos Vera Cruz.

 

Clementino Marques, gestor do Gime 21, ansioso por conhecer o prémio prometido, deixou “palavras de encorajamento” aos outros GIME para que possam atingir o mesmo patamar. Manifestou disponibilidade em continuar a trocar experiências com outros gestores e a ajudá-los a reduzir ao máximo as penalizações.

 

Na tabela de classificação, em segundo e terceiro lugares ficaram os Gimes 5 e 26 com pouco mais de 650 e 640 pontos, respectivamente. O último é o Gime 27, com cerca de 523 pontos. 

 

 

Os GIME vistos pelos   

Os Grupos de Interesse de Manutenção de Estradas vêm realizando limpeza e fazendo pequenas reparações nas estradas, contribuindo para uma maior visibilidade e uma condução mais cómoda para os motoristas. Recolhemos a opinião de alguns cidadãos sobre o trabalho dos GIME.

 

Ntsebenew Kass

 

«Este programa é de louvar, isto porque este programa dá vida às nossas estradas, sobretudo nas vias que dantes ninguém passava. Mas hoje com o Gime as coisas melhoraram bastante. Isto tem uma grande importância porque evita acidentes. O meu apelo é que o governo apoie mais essas pessoas que dão mais brilho às nossas estradas. Espero que o projecto permaneça».

 

Albertino Soares

 

«Já ouvi falar do Gime. Para mim é um bom programa, uma vez que tem a capacidade de cuidar e deixar as estradas sempre limpa. Até agora, acho que o governo pensou um pouco nos motoristas e nos peões. Isto é fixe porque quando a estrada está bem tratada não estraga os pneus tão cedo e os automóveis ficam em boas condições. Acho que o governo deve continuar com este tipo de acção. Por acaso é uma boa iniciativa e isto contribuiu para diminuir o número de desempregados no país».

 

Seize Gomes

 

«É muito bom, o trabalho que o Gime tem estado a desempenhar. Isto porque tem trazido outra visibilidade nas nossas vias. Anteriormente, via-se capins altos nas bermas das estradas e dificultava um pouco a condução. E quando chovia havia queda de barros e o terreno ficava escorregadio e provocava acidentes. Mas vejo que as coisas mudaram muito. Este trabalho tem estado a ajudar muitas famílias que estavam desempregadas, embora acho que o salário não é muito eficaz, mas já dá um jeito».

 

Francisca Martins

 

«Para começar quero dizer que tenho um filho que estava empregado no Gime. Mas infelizmente ele saiu porque foi mobilizado para o serviço militar. Ele e os outros colegas davam muita vida para que a estrada ficasse sempre limpa. Dantes a estrada de Canavial, Ocá era péssima; mas agora podemos passar à vontade e o transporte também. Nos tínhamos muitas dificuldades em trazer os produtos para a cidade. Graças ao Gime hoje tudo é mais fácil. porque o carro vai até lá sem problemas».